“O lobby é a atividade mais democrática que existe”

Carlos Matos assumiu em Maio a direcção da Associação Portuguesa de Empresas de Conselho de Comunicação e Relações Públicas (APECOM), uma organização que representa 70% do sector, mas que – como o próprio reconhece – “estava moribunda”. Um dos objectivos é traçar um retrato de um sector afectado pela redução do mercado e o esmagamento de preços. Trazer para a associação algumas das empresas que não são sócias, entre elas algumas das maiores, e criar um documento de boas práticas com regras, por exemplo, para os concursos são alguns dos desafios traçados. O lobby é outro dos temas em agenda.

Por Catarina Madeira (Diário Económico)

O Governo quer regulamentar o lobby. Que desafios se colocam às agências de comunicação nessa área?

Saber e perceber antecipadamente o que está a ser pensado relativamente ao seu sector do ponto de vista legislativo. A maneira como pode ou não a tempo influenciar as decisões, no sentido mais democrático do tempo. É um dos temas que estamos a tentar desenvolver dentro da associação.

Faz sentido legislar o lobby?

Faz todo o sentido, é importante saber quem é quem, de onde vem, ter transparência. Uma das ideias que mais me motivou a aceitar este desafio é exactamente tentar reforçar nesta actividade toda a ideia da transparência e da ética. E, do ponto de vista dos assuntos públicos, isso é essencial.

Registar os lobistas?

É fundamental e é uma prática comum nas economia mais desenvolvidas.

Que importância é que os assuntos públicos têm na actividade da agências?

Internacionalmente é bastante grande. Por exemplo, no caso da minha agência, em Espanha assume um peso muito grande na facturação global. Em Portugal estamos a dar os primeiros passos de uma forma mais profissionalizada. Mas estou convencido que vai ser uma actividade, sobretudo se esta regulamentação for avante, com um crescimento bastante significativo.

Faz sentido numa fase em que estão várias privatizações em curso?

Nesses processos é importante, mas é também para que as instituições e as organizações possam fazer ouvir a sua voz, possam estar dentro da discussão de um determinado tipo de regras que vão influenciar as suas próprias actividades.

É preciso que as empresas percebam que essa influência se pode exercer sem ser debaixo do pano e de forma pouco transparente?

O lobby é a actividade mais democrática que existe, nós sabermos que podemos falar, dar o nosso contributo. Depois, da discussão nasce a luz. Não é decidir pelo nosso futuro num gabinete fechado.

Foram ouvidos pelo Governo nesta matéria?

Fomos ouvido através do trabalho muito forte da nossa secretária-geral, esse foi um dos benefícios da nossa integração. Dispomos de uma secretária-geral que é comum às agências de meios e à APAP (Associação Portuguesa das Agências de Publicidade, Comunicação e Marketing).

A integração da APECOM _na APAP vai reforçar o papel da associação?

Foi um momento decisivo. É uma integração do ponto de vista logístico, continuamos a ser independentes, mas há muitos temas que são comuns às duas actividades, a questão dos concursos, os códigos da publicidade, o lobby…

Na tomada de posse disseram que os objectivos eram reforçar credibilidade, transparência e reputação. Como esperam fazê-lo num sector tão conflituoso?

Tenho todas as razões para achar que vou levar a nau a bom porto, porque tenho o reconhecimento dos meus pares. É um sector marcado por algumas rivalidades e desavenças, mas ao mesmo tempo é um sector que necessita de crescer.

Neste biénio é possível pôr as principais agências a remar para o mesmo lado?

Acredito. Não temos de ser absolutos. Podemos ser relativos. Não quero que agora fiquemos muito amigos uns dos outros. Um especialista espanhol diz que “devemos aprender a colaborar, trabalhar em equipa, a trocar experiências e conhecimento. Devemos trabalhar pelo bem do sector e pelo reconhecimento da nossa profissão”. Gostava de ter dito isto, é o resumo mais completo do que pode ser a função da associação.

Isso é mais difícil quando o mercado não chega para todos.

O futuro do sector vai passar por uma palavra: talento, que por sua vez tem de ser bem pago e de várias áreas.

Começam a surgir pequenas ‘boutiques’ de comunicação que levam o talento e os clientes de apenas uma pessoa. Como avalia este fenómeno?

Ainda bem que existe. Se calhar as grandes agências têm também de ter esse espírito de boutique. Espero que estas agências tragam ao mercado oferta de qualidade.

Há mercado para todas?

Neste momento, talvez esse seja um problema. Mas a selecção vai ser feita naturalmente, quem for bom fica, quem for mau cai, como tem acontecido ao longo do tempo. Neste momento, vivemos tempos difíceis fruto do esmagamento dos preços, se calhar o próprio sector teve culpa…

Continuam a praticar-se, incluindo no sector público, preços abaixo do aceitável?

Sim, mas isso vai ter de mudar. O nosso sector não deve ir atrás dessa forma se não vai ser a vítima.

Para isso também é preciso alguma unidade.

Sim. Se quisermos sobreviver a qualquer preço, vamos acabar por morrer todos na praia. Neste momento estamos a tentar trazer para a associação empresas que não são sócias, algumas grandes, e o ‘feedback’ tem sido muito positivo. Queremos criar um conselho consultivo que, por exemplo, ajude a criar regras para os concursos, criar um documento de boas práticas.

Artigo publicado na edição em papel e em http://economico.sapo.pt/noticias/o-lobby-e-a-actividade-mais-democratica-que-existe_222842.html

6 de Julho de 2015
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